por Sergipe

Um cantinho português em Sergipe

Um cantinho português em SergipeTEXTO: Acácia Trindade // FOTO: Jorge Henrique

Quem teve o privilégio de ir a Lisboa e saborear os pastéis de Belém e os bolinhos de bacalhau, fabricados no Mosteiro dos Jerónimos, deve sonhar até hoje em comer algo igual ou que se assemelhe. Não é que descobri aqui, em Aracaju, um cantinho aconchegante onde pude desfrutar das delícias de Portugal? Estou falando da lanchonete Luzitânia, que fica num pequeno espaço no calçadão da rua Laranjeiras, vizinho da Igreja São Salvador, um ponto turístico da capital. Fui recebida por um português legítimo, bom papo e que mostra logo de cara que mantém as suas raízes vivas. O senhor Abel Emídio Gonçalves de Oliveira, no alto dos seus 86 anos, usa a gastronomia para manter o contato diário com as tradições da sua terrinha.

A idade pode até criar alguns limites para o senhor Abel Emídio, mas não lhe rouba os sonhos. Ele sonha em trazer mais da sua querida Portugual para os sergipanos e esse sonho ainda pode se transformar em um grande restaurante, onde os sergipanos poderão saborear a verdadeira bacalhoada, aquela que o filé se solta ao toque do garfo. Uma delícia... A Luzitânia já foi loja de calçados lá nos idos de 1960 e uma década depois, se tornou lanchonete. Muitas coisas se passaram na vida da família Gonçalves, mas só as fortaleceu. Abel Emídio tem dois filhos, um casal, mas é o Abel Santana, de 39 anos, que está capitaneando a lanchonete.

Juro que sentei no balcão da lanchonete meio descrente de que iria provar um verdadeiro bolinho de bacalhau e um gostoso pastel de Belém, que fiquei fã. A apresentação do prato estava bonita, mas à primeira mordida, voltei ao tempo e juro que me deu vontade de fazer um ‘huuummm’... tão gostoso como o da apresentadora Ana Maria Braga. O bolinho é de bacalhau mesmo, não de massa. Saboroso demais e garanto que aqui em Sergipe não tem igual. Comi muito e depois fui provar a sobremesa, finalmente, o sagrado pastel de Belém.

Foi outra grata surpresa. A massa do pastel de nata não tem o mesmo sabor da receita do Mosteiro dos Jerónimos, mas se assemelha muito, é uma delícia. Foi ai que Abel Emídio me contou que a sua esposa, Maria Clara, atravessou o oceano em busca da receita. Passou 30 dias lá aprendendo a receita do pastel de Belém. Não é que descobriu o segredo e agora o guarda a sete chaves? O pastel é produzido na casa do casal e não na lanchonete, com os outros salgados e doces. Tudo para não ser copiado.

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Por fregueses antigos de Abel, jornalistas, artistas plásticos, cantores, empresários e, alguns turistas que estavam no local, fiquei sabendo que a lanchonete também oferece o melhor pastel de bacalhau de Sergipe. Os sucos de frutas, sem agrotóxicos, que ele faz questão de frisar que produz na sua própria chácara, são muito bons. Fui conhecendo espaço, conversa vai conversa vem, e me deparei com outros produtos que Abel Emídio importa de Portugal. A carta de vinhos não deixa a desejar. Tem diversos fornecedores das mais diversas regiões de Portugal: Douro, Alentejo, Bairrada, Vinhos Verde e Rosé, Ribatejo, Dão, Estremadura, Setúbal (Moscatel) e do Porto. Os azeites, também são os queridinhos do senhor Abel. Ele tem azeite com acidez 0,2, que é medicinal, produzido com as melhores azeitonas. Sem falar nas sardinhas, no atum e em outras delícias portuguesas. É um verdadeiro cantinho português em Sergipe.
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